7.12.11

O toque do despertar: uma história de acordes e palavras




“- É só ler menino!!! Basta ter vontade!!!” Nossa, quantas vezes será que escutei, falei ou mesmo pensei nessas frases? Impossível calcular...

Eu sabia, eu sempre soube que eram frases vazias. Claro, com esses anos todos de estudos, já sou capaz de reconhecer que não é “só” ler, dada a complexidade do ato de leitura. E sei que a vontade, o desejo, esses a gente não decide quando sentir.

Ainda sim, eu falo...contrariada, mas eu falo! Que professor nunca se viu impaciente diante das dificuldades de seu aluno? Professor é gente. Professor é ex-aluno. O professor teve muitos professores.

E a cada vez que eu tenho vontade de dizer essas frases, é em meus antigos professores que penso. Tento resgatar lá no fundo da memória todos os meus mestres: desde a Irmã Antonia da pré-escola até meus orientadores de mestrado e pós-graduações. Tento lembrar como os mais adorados e os mais temidos lidavam com nossas dificuldades. Tento fazer da minha prática, uma miscelânea da prática de todos eles. E assim tem sido...

Mas o fato é que eu nunca ouvi essas frases, não conheço seu peso, não conheço sua dimensão. Nunca ouvi e, até hoje, eu realmente acreditava nunca ter precisado ouvir. Até hoje...

Neste sábado de novembro, enquanto dedilhava algumas notas em meu tão negligenciado piano, errei. Não foi um erro de quem há tempos não pratica. Foi o mesmo erro de tantos e tantos anos, foi um erro naquela música, naquele acorde, com aquela mão.

Onde estava a partitura? Na minha frente. E não é só ler?!

No momento em que minhas mãos aceleraram os movimentos obedecendo a uma ordem de cérebro para “passar logo por esse acorde e que saia do jeito que sair”, lembrei de minha mãe anunciando “errou de novo!!!!” – como se eu não soubesse...como se eu não fosse cúmplice desse trato entre meu cérebro e minhas mãos. Sabia. Mas sabia também que aquele acorde cheio de notas me assustava.

No entanto, que engraçado, não consegui me recordar de um momento no qual a minha professora tivesse anunciado o meu erro. Fiquei curiosa...intrigada mesmo. Por que ela nunca disse “é só ler menina!!! Basta ter vontade!!!”???

E, então, ao virar a página de minha pasta amarelada, encontrei na partitura seguinte algumas notas, feitas à caneta, pelas mãos da Dona Maria de Lourdes Dias Aun. Essas notas, mais simples, mais descomplicadas, substituíam as notas originais da partitura. As mãos tinham que trabalhar menos, os dedos davam menos nó, mas a melodia se conservava – a melodia que eu buscava. E essa simplificação musical se repetia em várias outras músicas e eu...eu pude finalmente compreender. Foi o meu despertar.

Quem diria, quem poderia imaginar que o verdadeiro sentido do “ensinar” muitas vezes se encontra fora das salas de aula regulares? Tantos são os professores em nossas vidas...

A professora Maria de Loudes percebeu que não era só ler. A cada vez que “fazia de qualquer jeito”, eu explicitava minha incapacidade (seja de aprendizado, seja motivacional) de fazer direito e certo. Ela também sabia que eu não passaria a ter vontade de fazer certo em razão de um pedido seu. Quanta coisa ela sabia! Que bela pedagoga era ela!

Minha professora de piano, então, fez diferente: tornou simples, tornou desejável, tornou prazeroso o objeto de seu ensino e de meu aprendizado. E se eu era uma “disléxica” musical, o fato é que nunca soube. A verdade, é que, tantos anos depois, ainda encontro no piano aquilo que procuro. Nossa relação não carrega traumas nem rancores. Nem rótulos nem nada disso.

E assim, acabei o meu dia com alguns rostinhos na mente. O que esses rostinhos realmente buscam na leitura? O que buscam na escrita? Como enfrentam aqueles textos longos, cheios de palavras? Como trazer para a superfície, o desejo, a vontade, o sentimento que as frases de desmotivação só fazem carregar para as profundezas da alma?

Continuo a dedilhar. Para cada nota, uma palavra: descomplicar, sentir, envolver, querer... agora, para mim,  assim se faz a melodia da leitura e da escrita.