26.1.16

PIPOCAS AO CHÃO



PIPOCAS AO CHÃO
(Por Rita de Cássia Alves Limissuri)
Aprecio as imagens, mas prefiro as palavras. Por mau jeito de minha parte, talvez; por ignorância, quem sabe?!; por um simples gosto pessoal, por que não?

O fato é que, quando fui tocada por sentimentos mais profundos (belos ou não), as imagens não se fizeram a tempo ou foram insuficientes ou não foram intensas o bastante para eternizar esses momentos.

Não, não valorizo palavras em detrimento das imagens. Aprecio as imagens! Mas prefiro as legendas.... Não as legendas já prontas ao lado do quadro, mas, sobretudo, aquelas que se criam nas diversas cabeças e nos diferentes corações; o texto mental que se redige, o contexto ao qual a imagem nos remete, as construções e as desconstruções que foram necessárias para que aquela imagem pudesse existir como, por exemplo, uma simples foto de pipocas ao chão...

Quinta-feira de janeiro. Férias escolares. Sem carro e com a já cobrada promessa de um programinha a sós com a primogênita. Sem carro é igual sem berçário...sem chance! E a primeira reconstrução do programa: a inclusão do caçula e a crença de que ele adormeceria durante o trajeto e durante o filme.

Quinze minutos de caminhada até o Shopping, o dobro de "estou cansada", o triplo de "estamos chegando?" e, sem dúvida, o quíntuplo de sensação térmica. A segunda reconstrução foi a inclusão de um caçula que, além de acordado, encontrava-se muito animado.

Aprecio as imagens. Mas não sei como poderia registrar o bem-estar que acometeu a todos graças ao ar-condicionado do local.... Optei pelas palavras.

Sem cachorro Snoopy. Mudança na programação. E a escolha por um tal de dinossauro Arlo foi a terceira reconstrução. Cinema escuro, filme já iniciado, dois filhos, carrinho, pipoca, MM, bilhetes, carteirinha para comprovar meia entrada, crianças com medo... tateia daqui, tateia de lá, todos se instalam. Filha numa poltrona que a engole, colando joelhos e testa e fazendo voar seus superfaturados MMs. Mãe e bebê (e mamadeira do bebê) na poltrona ao lado com as pipocas, o cheiro da pipoca, o sabor da pipoca, o barulho da mordida na pipoca, o engasgo com a pipoca, o encontro das mãos no saco de pipoca, a disputa pela mesma pipoca...

E nesse ritmo monótono e sincronizado de estica o braço, pega a pipoca, leva à boca, mastiga, deglute, estica o braço... o caos vai cessando... o cansaço vai saindo pela pele como num processo de vaporização. E a mãe olha um, depois outro... toca um, depois outro... Intimamente ela agradece a Deus por esse momento e sente seu peito inchar até doer como se fosse abrir e derramar alegria e gratidão por toda a sala de projeção. Aprecio as imagens, mas só sou capaz de explicar os sentimentos pelas metáforas...

Mas o que invade a sala não é a alegria da mãe. É a mamadeira do bebê que sai rolando sabe-se lá para onde. É a irmã mais velha que vê naquilo a oportunidade maior de testar a eficácia de seu super tênis que acende e que então sai pisando duro com os calcanhares para ativar a discoteca sob os pés. As luzes coloridas não detectaram a mamadeira, mas fizeram com que a mãe olhasse para o chão e visse a quantidade de pipocas caídas. Pipocas ao chão, muitas pipocas ao chão. Uma para cada um dos sentimentos sentido pela mãe naquele dia. Uma para cada sonho da menina. Uma para cada travessura do menino. Tantas pipocas que serão varridas, banidas, que deixarão de existir para a maioria.

Aprecio as imagens, sobretudo, de pipocas ao chão. Ah, quantos amores atrelados a essa imagem...quantos sabores...quantos odores...

O filme finda após a paciência das crianças e as forças da mãe. Volta, agora, de táxi. Caçula pisa no banco. Mãe lhe tira os sapatos. Caçula “assume” a direção do carro. Mãe acode. Caçula pinga suco no estofado. Primogênita entrega. Motorista para o carro. Mãe respira. Filha se indigna: "Por que tem que pagar???"

Aprecio, realmente aprecio as imagens: quando disparadoras de palavras. E aprecio os textos, quando me fazem sonhar. Aprecio acima de tudo a vida, quando permite reconstruir.

Imagens e palavras se completam, se enriquecem. Quando a memória faltar ou o coração endurecer, precisarei das duas - imagens e palavras - para que pipocas ao chão não sejam apenas pipocas ao chão.