21.1.11

@ Especialista defende vocabulário diversificado


 

Na Revista Educando de outubro de 2010/edição 14, tive a oportunidade de discorrer sobre o vocabulário das crianças brasileiras residentes do Japão. Outras edições da revista também trazem diversas matérias que discutem de maneira exemplar a questão do bilinguismo português/japonês e sua implicação na educação.

Sugiro uma visita pelo site da Revista Educando (http://www.revistaeducando.jp/) onde vários outros aspectos da cultura japonesa e da comunidade brasileira no Japão podem ser conhecidos.

Segue a matéria sobre vocabulário:

Revista Educando: Como os professores podem ajudar a enriquecer o vocabulário das crianças no ensino fundamental?

Rita: Independentemente de o professor desejar estimular o desenvolvimento do vocabulário na língua portuguesa, as atividades com as crianças devem ser lúdicas e diversificadas como teatrinhos e jogos. No entanto, deve-se saber que o vocabulário está intimamente relacionado à cultura ou à realidade de um grupo social. Se a intenção é desenvolver a língua portuguesa, não adianta apresentar às crianças elementos que fazem parte da cultura japonesa e, simplesmente, ensinar seus nomes em português; esses elementos podem não ser difundidos no Brasil e, como conseqüência, a criança terá um arquivo de palavras pouco úteis ao se comunicar com brasileiros.

Outro aspecto é a questão da “sonoridade” da língua. A familiarização com os sons de uma determinada língua tende a favorecer o aprendizado de palavras da mesma, ou seja, se a criança, apesar de viver no Japão, for capaz de perceber a língua portuguesa quanto às suas características acústicas (como melodia e traços fonêmicos), ela certamente apresentará maior facilidade em enriquecer seu vocabulário. Por esse motivo é interessante que o professor faça uso de jogos lingüísticos como cantigas, canções, parlendas, trava-línguas e poesias na língua a ser trabalhada. Essas atividades são interessantes por apresentarem rimas e repetições de palavras e de sílabas, o que leva a criança a desenvolver seu conhecimento fonológico.

Em relação aos adolescentes, uma preocupação comum é como desenvolver o vocabulário para que escrevam bons textos. Nesse momento a questão quanto à norma culta da língua costuma ficar bastante evidente uma vez que os adolescentes tendem a fazer uso de gírias e acabam por transcrevê-las em suas redações.
Com esse grupo o professor deve ser muito habilidoso para não rejeitar a maneira dos alunos se comunicarem julgando-os como maus falantes, mas sim, fazer com que eles tenham interesse em conhecer outras maneiras de falar e de escrever e de transitar pelas várias linguagens da mais coloquial a mais culta. Ao assistir um filme ou ao ler um livro policial, por exemplo, o aluno pode ser desafiado a escrever também uma história e a ser capaz de trazer para sua redação tanto a maneira de falar dos bandidos, quanto a fala mais técnica e formal dos detetives.

Revista Educando: Como a internet pode ser usada nesse trabalho?
Rita: O vocabulário está intimamente ligado a conhecimento de mundo e a internet é uma excelente ferramenta, que nos permite viajar e explorar outras culturas.
Através dela o aluno pode navegar por sites brasileiros, nos quais ele saberá o que se compra, se vende, se ouve, se lê no Brasil. Mas a internet é somente uma das muitas ferramentas que podem ser utilizadas no aprendizado e, além disso, ela também deve oferecer a oportunidade de uso oral das palavras (via videoconferência, por exemplo) e graficamente (via chats, salas de bate papo etc).
Atividades quotidianas como ler, ouvir música, assistir filmes são muito ricas, mas, ressalto a importância da diversidade. Diferentes estilos literários, musicais e cinematográficos nos ensinam novas palavras e, por conseqüência, nos permitem comunicar com diferentes pessoas.

Revista Educando: De que forma os pais podem ajudar nessa tarefa?
Rita: A força motriz de qualquer aprendizado é a motivação. Se os pais desejam que seus filhos se comuniquem bem em português, eles devem despertar nas crianças o interesse pelo Brasil e por sua língua. No caso da família, porém, são muitas as variáveis que podem interferir no desenvolvimento do vocabulário de uma língua ou de outra. Isso vai depender se somente um dos pais é brasileiro ou os dois; se estão no Japão permanentemente ou se fazem planos de retornar ao Brasil; se a criança nasceu no Japão ou com que idade ela se mudou de país e, até mesmo, com a identificação e a satisfação dos pais com o país – o que acaba sendo transmitindo às crianças.
No enriquecimento do vocabulário a família pode ajudar nomeando as partes do corpo no momento do banho (para crianças muito pequenas), cantando, lendo histórias, conversando sobre as mais diversas situações quotidianas, incentivando a criança a inventar histórias e a brincar de faz de conta sempre, claro, na língua que os pais pretendem estimular.


Revista Educando: E como a programação televisiva pode favorecer o enriquecimento do vocabulário da criança?
Rita: A televisão ajuda na compreensão de muitas palavras, porém, é fundamental que a criança tenha oportunidade de fazer uso delas. Lembro que é importante conhecer muitas palavras, mas também, ter habilidade e velocidade para utilizá-las – o que a televisão não possibilita por ser uma atividade passiva e unilateral.
Para que ocorra realmente o enriquecimento do vocabulário, é importante que os programas evoluam junto com a idade da criança, oferecendo um grau de complexidade lingüística cada vez maior. Mas essa evolução deve ser lenta e gradual uma vez que, dificuldade demais, gera frustração e desinteresse.
Os programas educativos tendem a apresentar o vocabulário categorizado em grupos semânticos (cores, formas, números etc), o que é bastante interessante para que a criança possa se organizar, porém, é importante que, aos poucos, a criança passe a ter contato com essas mesmas palavras inseridas em frases simples, frases mais complexas, textos ou diálogos curtos e assim por diante.